Sou um estrangeiro nesse mundo. Sou um estrangeiro, sim, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os privilégios de uma terra que nunca visitei. Sou um estrangeiro para a minha alma. Quando minha língua gala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu eu interior ri ou chora, se entusiasma ou treme, meu outro eu estranha o que ouve e vê, e as interrogações são infinitas. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio. Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo o rosto de alguém que minha alma não sente e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem. Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos gritam: “Eis o cego”. Fujo deles. Mas encontro um grupo de moças dizendo: “É surdo como uma pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo”. Deixo-as correndo. Depois, é a vez dos homens. “És mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua”. Sinto medo. E encontro o grupo dos velhos que apontam para mim com dedos trêmulos e dizem: “És o louco que perdeu a razão ao frequentar o mundo da poesia”. Acordo pela manhã e acho-me prisioneiro do escuro. Se sair à luz, a sombra do meu corpo me segue, e as sombras de minha alma me precedem, levando-me onde não sei, oferecendo-me coisas que não preciso, procurando algo que não entendo. Ideias estranhas. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E espíritos de nações esquecidas me fitam. Fumaça. Sou um estrangeiro e não há mundo que conheça uma única palavra do idioma que meu corpo fala. Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isso, permanecerei estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para a minha verdadeira pátria.